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quarta-feira, 29 de dezembro de 2010


O jovem fala de si
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Hebe Signorini Gonçalves (*)
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Em pesquisa coordenada por Lucia Rabello de Castro, 1.300 jovens foram entrevistados na região metropolitana do Rio de Janeiro. Entre outros aspectos, eles foram indagados acerca de quais seriam, em seu entender, os principais problemas da juventude, e quais as formas de enfrentá-los.
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Os resultados mostram que as questões relacionadas à violência, à droga e ao tráfico despontam como os principais problemas citados. Na descrição dos jovens, é a associação violência-droga-tráfico a resposta mais significativa. Observe-se que não se trata de problemas isolados que se potencializam, mas de uma única questão expressa em três vertentes indissociáveis, constituindo uma unidade discursiva. No entender dos jovens entrevistados, violência-droga-tráfico constitui um problema porque impõe um risco real - a ameaça à segurança pessoal - e uma limitação simbólica - representada no sentimento do medo que conforma os modos de viver e circular na cidade.
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Não há como escapar: polícia e traficantes aparecem como faces do mesmo problema; amigos de antes ingressam na marginalidade e não podem mais compartilhar espaços nem tampouco histórias de vida; freqüentar os bares, os pontos de encontro, é atitude que requer um esmiuçar constante dos riscos envolvidos; a ida à escola deve considerar, a cada dia, se é possível ir, ficar e voltar. A praça, que nas comunidades mais pobres é o lugar da vida social, nem sempre está disponível para a brincadeira, o namoro, o encontro com os amigos. Assim descrita, a vida nas comunidades emerge como o lugar de uma forma bastante peculiar de socialização, em que será necessário ao jovem exercitar a percepção, ficar esperto4 para escapar das inúmeras armadilhas que as trocas sociais oferecem. É preciso resistir à tentação do ganho fácil, empreender um esforço da vontade para aplicar-se nos estudos e formar um capital pessoal que mais adiante, transpostos os muitos obstáculos, possa vir a garantir um emprego que permita ao jovem apresentar-se à sociedade, finalmente, como adulto.
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O destaque aos dados coletados na comunidade de Bom Retiro serve para desmistificar a crença de que a violência decorre das atividades ligadas ao tráfico de drogas. Ali não há referência ao tráfico, mas, ainda assim, a droga é o problema mais citado; ela se conecta à violência pela via subjetiva, não pelas disputas de quadrilha pelo mercado da droga. No entender dos jovens residentes nessa comunidade em particular, o uso de drogas é uma escolha do sujeito, condicionada em grande parte pelos problemas que ele não quer ou não pode enfrentar: porque tem a cabeça fraca ou porque, diante das dificuldades com os pais em casa, elegeu a droga como uma resposta fácil para seus problemas.
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O julgamento moral que condena o uso da droga será aplicado, assim, às conseqüências que ela acarreta para o sujeito: a droga impede a dedicação aos estudos, esforço necessário na construção de um futuro estruturado com base no emprego sólido e nas relações afetivas estáveis. A droga compromete as relações de amizade e vizinhança, pois, drogado, o jovem se sente superpoderoso e quer matar todo mundo. Ao deslocar o tráfico, pode-se assim pôr em relevo as escalas de valor que orientam certas percepções do jovem: o núcleo de sentido em suas falas é a cabeça fraca, que afasta o jovem do emprego e da vida em família, e introduz a violência na esfera de suas relações pessoais. Mais que a segurança pessoal, preocupa o comprometimento de projetos de futuro que têm como rumo e norte a estabilidade econômica e afetiva. Consciente das dificuldades a superar, o jovem deixa transparecer que só a cabeça forte o levará até lá.
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Não se trata de negar o risco das ruas, reconhecido como real. Todos os entrevistados fazem referência a uma violência que é difusa, que está em todo lugar, que alimenta seus medos e condiciona suas escolhas. O enfrentamento dessa dificuldade específica pede a ação dos setores públicos, em particular da polícia, instância que identificam como a responsável pelo controle da criminalidade urbana. Mas, incontinenti, apontam a polícia como parte do problema, pois ela é corrupta, entra nas comunidades pra esculachar, estabelecendo uma tensão que potencializa o medo e a violência, em vez de reduzi-los.
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Na ausência do público como fonte de suporte para a vida social até mesmo no que diz respeito ao controle da criminalidade, o jovem ressente-se da ausência do Estado. Diante de um poder público que não tem feito muita coisa, refluem sobre a família todas as expectativas de suporte e apoio. Não faço a mínima idéia de com quem ele [o jovem] pode contar hoje além da família, resume um entrevistado. Na frase: "a família é tudo", repetida por um contingente expressivo de jovens entrevistados, desenha-se a chave da construção de suas subjetividades. O apoio da família, vital para ampliar a chance de realizar os projetos de vida, é praticamente o último reduto de seus sonhos. É um apoio que se traduz na presença física - conversar, acompanhar a vida dos jovens e ser companheiro nos momentos difíceis - e também no esteio econômico, que permite a eles atravessar a fase da vida em que não podem se sustentar.
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(*) Doutora em Psicologia, integrante do Núcleo Interdisciplinar de Pesquisa e Intercâmbio para a Infância e Adolescência Contemporâneas, do Instituto de Psicologia da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ).
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FONTE: http://juventudesulamericanas.org.br
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domingo, 19 de setembro de 2010

As drogas e a hipocrisia
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Jorge Fernando dos Santos
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A questão das drogas tem dois ou mais lados a serem considerados. Primeiro, o tráfico com todas as suas implicações, como violência, corrupção e impunidade. Segundo, o uso das drogas propriamente dito, que leva indivíduos à dependência, famílias à desestruturação e o Estado a gastar – ainda que modestamente – com a reabilitação de viciados. O problema crucial, no entanto, é a hipocrisia que gira em torno do tema, dificultando o debate entre as gerações.
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O comércio de drogas movimenta bilhões de dólares em todo o mundo e por isso nem todos os governos estariam interessados em resolver a questão de uma vez por todas. E existe também o paradoxo legal – no caso do Brasil, por exemplo – onde o usuário não é considerado criminoso. Tudo bem que todo vício é uma doença, mas se não fosse o uso de drogas não haveria tráfico que se sustentasse. O curioso é que a maioria dos usuários de drogas pesadas não está entre os pobres. Estes, quando são viciados, geralmente alugam sua força de trabalho aos traficantes para conseguir manter o vício. Já os jovens das classes média e alta têm dinheiro para sustentar o vício e por isso não precisam aderir ao tráfico – embora muitos já o façam, motivados principalmente pelas costas quentes do papai.
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Por outro lado, a sociedade brasileira é demasiadamente tolerante com aqueles que infringem a lei. Nossa história está cheia de violões que se tornaram mocinhos, a começar pelo cangaceiro Virgulino Lampião. A imagem de Robin Hood sempre é evocada quando aparecem criminosos de aura romântica, como Lúcio Flávio, Pareja e Ramiro da Cartucheira. Também existem aqueles que tentam comparar drogados e bêbados – embora o álcool também cause muitos estragos. O problema é o nível desses estragos, pois o drogado chega a ponto de roubar ou matar para sustentar o vício, enquanto o bêbado raramente chega a tanto. O dependente de drogas geralmente usa álcool, mas o alcoólatra muito raramente consome drogas.
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E há ainda que se considerar que mesmo nos tempos da lei seca, nos Estados Unidos, o crime organizado não chegou ao estágio alcançado pelos traficantes de drogas, com o nível de violência e comprometimento social da atualidade. Hoje, na guerra do tráfico, há muito mais inocentes prejudicados que naquela época, durante a guerra do álcool, quando a Máfia ainda cultivava princípios de honra e lealdade.Direta ou indiretamente, a sociedade brasileira também se mostra tolerante e muitas vezes se simpatiza com aqueles que fazem apologia das drogas. Em plena luz do dia, a televisão exibe filmes nos quais, vez ou outra, aparece alguém fumando maconha ou cheirando cocaína numa cena totalmente fora de contexto – já que o filme em questão não está necessariamente abordando a temática das drogas.
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O cinema brasileiro também parece aderir a essa mania. O filme Divã, por exemplo, tem uma cena totalmente despropositada na qual a protagonista Mercedes, interpretada por Lilia Cabral, aparece fumando maconha com o namorado interpretado por Reynaldo Gianecchini. A sequência termina com ela rindo nas fuças de um guarda que os aborda em flagrante no carro. O curioso é que não se fala mais no assunto e não fica claro se houve ou não alguma punição para o casal.
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Esse tipo de situação exposta com naturalidade nas telas da TV e do cinema não deixa de estimular jovens desavisados a experimentar drogas, ainda mais quando a cena é exibida gratuitamente, como se fizesse parte da rotina de vida de pessoas absolutamente “normais”. Fumar baseado parece ser uma coisa legal. Se fosse um filme ou novela sobre drogas, teria sentido, mas não podemos passar a ideia de que fumar maconha ou cheirar cocaína seja tão natural quanto beber um copo de cerveja ou uma dose de uísque.
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Moralismos à parte, não é uma simples questão de censura ou proibição. O que falta é abordar o problema de frente, sem hipocrisia. Mas como, se algumas escolas se veem intimidadas pelos pais até mesmo quando tentam abordar temas relacionados à educação sexual? Este e outros assuntos polêmicos, como drogas, álcool e até mesmo educação no trânsito deveriam ser englobados por uma disciplina que ensinasse noções de cidadania, direitos e deveres do cidadão, servindo de alerta para crianças e jovens cujos pais muitas vezes evitam ter esse tipo de conversa com os filhos.
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Outra coisa que se deve levar em conta é que o jovem pé-de-chinelo que vende drogas nas bocas de fumo certamente trabalha indiretamente para bandidos das classes média e alta. Não fosse assim, a julgar pelo número de clientes e pelo preço das drogas no varejo, as favelas seriam calçadas com ouro e diamantes e os presídios seriam verdadeiros palácios financiados pelos narcotraficantes.