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terça-feira, 29 de janeiro de 2013

Por um novo conceito de comunidade


Rogério da Costa (*)

A atual interconexão generalizada entre as pessoas tem chamado a atenção de muitos teóricos sobre seus efeitos no quadro das relações individuais e igualmente na forma como os coletivos se comportam quando se constituem como redes de alta densidade. Relações individuais e coletivas, particularmente no ciberespaço, têm despertado o interesse dos estudiosos de redes sociais, dos sociólogos, etnógrafos virtuais, dos ciberteóricos, dos especialistas em gestão do conhecimento e da informação, enfim, de todos aqueles que pressentem que há algo de novo a ser investigado, que a atual vertigem da interação coletiva pode ser compreendida dentro de uma certa lógica, dentro de certos padrões, o que já era anunciado nos anos 1980 pelos analistas estruturais de redes sociais.
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Temas como "inteligência emergente" (Steven Johnson, 2001), "coletivos inteligentes" (Howard Rheingold, 2002), "cérebro global" (Heylighen et al., 1999), "sociedade da mente" (Marvin Minsk, 1997), "inteligência conectiva" (Derrick de Kerckhove, 1997), "redes inteligentes" (Albert Barabasi, 2002), "inteligência coletiva" (Pierre Lévy, 2002) são cada vez mais recorrentes entre teóricos reconhecidos. Todos eles apontam para uma mesma situação: estamos em rede, interconectados com um número cada vez maior de pontos e com uma freqüência que só faz crescer. A partir disso, torna-se claro o desejo de compreender melhor a atividade desses coletivos, a forma como comportamentos e idéias se propagam, o modo como notícias afluem de um ponto a outro do planeta etc. A explosão das comunidades virtuais parece ter se tornado um verdadeiro desafio para nossa compreensão.
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Mas, antes de tudo, é importante salientar que todo tipo de grupo, comunidade, sociedade é fruto de uma árdua e constante negociação entre preferências individuais. Exatamente por essa razão, o fato de estarmos cada vez mais interconectados uns aos outros implica que tenhamos de nos confrontar, de algum modo, com nossas próprias preferências e sua relação com aquelas de outras pessoas. E não podemos esquecer que tal negociação não é nem evidente nem tampouco fácil. Além disso, o que chamamos de preferências "individuais" são na verdade fruto de uma autêntica construção coletiva, num jogo constante de sugestões e induções que constitui a própria dinâmica característica da sociedade.
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Em meio a todo esse alvoroço no ciberespaço, um termo tão consolidado como o de "comunidade" vem sendo discutido e mesmo questionado por alguns teóricos. Alguns reclamam sua falência, com um certo tom nostálgico, lamentando seu desgaste e perda de sentido no mundo atual. Outros apontam para os focos de resistência que comprovariam sua pertinência, mesmo em meio a nossa sociedade capitalista individualizante. Mas há os que acreditam, simplesmente, que o conceito mudou de sentido.
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Num livro publicado em 2003, intitulado "Comunidade: a busca por segurança no mundo atual", Zygmunt Bauman, sociólogo reconhecido por seus trabalhos sobre o fenômeno da globalização, procura analisar o que estaria se passando atualmente com a noção de comunidade. É possível perceber uma série de conceitos em jogo no texto do autor: individualismo, liberdade, transitoriedade, cosmopolitismo dos "bem-sucedidos", comunidade estética, segurança. Bauman supõe que haja uma oposição entre liberdade e comunidade. Considerando-se que o termo "comunidade" implique uma "obrigação fraterna de partilhar as vantagens entre seus membros, independente do talento ou importância deles", indivíduos egoístas, que percebem o mundo pela ótica do mérito (os cosmopolitas), não teriam nada a "ganhar com a bem-tecida rede de obrigações comunitárias, e muito que perder se forem capturados por ela."
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(*) Professor do Programa de Pós-Graduação em Comunicação e Semiótica da PUC-SP.
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FONTE: http://www.scielo.br

domingo, 19 de junho de 2011

O capital social

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Rogério da Costa (*)
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Na corrente da mudança de perspectiva do conceito de "comunidade" para "redes sociais", vários autores das ciências sociais passaram a investigar, desde os anos de 1990, o conceito empírico de capital social (Burt, 2005; Lin, 2005; Narayan, 1999; Portes, 1998; Grootaert, 1997; Fukuyama, 1996; Putnam, 1993; Coleman, 1990). Essa noção poderia ser entendida como: a capacidade de interação dos indivíduos, seu potencial para interagir com os que estão a sua volta, com seus parentes, amigos, colegas de trabalho, mas também com os que estão distantes e que podem ser acessados remotamente. Capital social significaria aqui a capacidade de os indivíduos produzirem suas próprias redes, suas comunidades pessoais.
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Cabe lembrar que James Coleman e Robert Putnam, que estão entre os primeiros a analisar a noção de capital social, procuraram defini-lo como a coerência cultural e social interna de uma sociedade, as normas e valores que governam as interações entre as pessoas e as instituições com as quais elas estão envolvidas. A importância do papel das instituições é muito clara aqui, pois estas funcionam como mediadoras da interação social, uma vez que propagam valores de integração entre homens e mulheres. Escolas, empresas, clubes, igrejas, famílias ainda funcionam como referência para as relações sociais, apesar de todas as crises que vêm enfrentando. Compreender seu papel e influência numa comunidade faz parte do processo de avaliação do capital social. Países arrasados por guerras civis ou invasões (Rwanda e Iraque, por exemplo)1 percebem uma degeneração acentuada de seu tecido social, causada justamente pela ausência do papel ativo das instituições. Reconstruí-las é o meio mais seguro para se restaurar parte do capital social perdido (que é, basicamente, a confiança perdida).
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Contudo, as instituições, como apontamos, exercem um papel regulador e mediador de processos mais profundos. O que nos interessa, no caso de uma análise do capital social, são as variáveis microssociológicas, como a sociabilidade, cooperação, reciprocidade, pró-atividade, confiança, o respeito, as simpatias. Daí o fato de muitos estudos sobre capital social apontarem para a necessidade do levantamento de uma série de informações sobre o cotidiano das pessoas como, por exemplo, saber se elas conversam com seus vizinhos, recebem telefonemas, mas também se freqüentam clubes, igrejas, escolas, hospitais etc. Traduzindo de outra forma, é preciso levantar a implicação dos indivíduos em associações locais e redes (capital social estrutural), avaliar a confiança e aderência às normas (capital social cognitivo) e, igualmente, analisar a ocorrência de ações coletivas (coesão social). Estes seriam alguns indicadores básicos do capital social de uma comunidade.
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Mas por que seria isso considerado precisamente como "capital"? Ora, as relações sociais passam a ser percebidas como um "capital" justamente quando o processo de crescimento econômico passa a ser determinado não apenas pelo capital natural (recursos naturais), produzido (infraestrutura e bens de consumo) e pelo financeiro. Além desses, seria ainda preciso determinar o modo como os atores econômicos interagem e se organizam para gerar crescimento e desenvolvimento. A compreensão dessas interações passa a ser considerada como riqueza a ser explorada, capitalizada.
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Como assinalam Grootaert & Woolcock: um dos conceitos de capital social, que encontramos nos sociólogos R. Burt, N. Lin e A. Portes, refere-se aos recursos - como, por exemplo, informações, idéias, apoios - que os indivíduos são capazes de procurar em virtude de suas relações com outras pessoas. Esses recursos ('capital') são 'sociais' na medida em que são acessíveis somente dentro e por meio dessas relações, contrariamente ao capital físico (ferramentas, tecnologia) e humano (educação, habilidades), por exemplo, que são, essencialmente, propriedades dos indivíduos. A estrutura de uma determinada rede - quem se relaciona com quem, com que freqüência, e em que termos - tem, assim, um papel fundamental no fluxo de recursos através daquela rede.
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Há, contudo, uma forte tendência de a economia neoclássica rejeitar as análises que procuram introduzir variáveis de ordem social nas teorias econômicas contemporâneas. Francis Fukuyama (1996) critica, em seu famoso livro "Confiança", a perspectiva dominante da economia neoclássica e suas conseqüências para uma autêntica reflexão sobre capital social. Ele discorda radicalmente dos pressupostos que alimentam essa teoria, fundamentalmente baseada numa visão de natureza humana egoísta:
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Todo o imponente edifício da teoria econômica neoclássica contemporânea repousa num modelo relativamente simples da natureza humana: os seres humanos são "indivíduos maximizadores da utilidade racional". Isto é, os seres humanos procuram adquirir o maior número possível de coisas que julgam úteis para si. Fazem isso de maneira racional, e fazem esses cálculos como indivíduos que buscam maximizar o benefício para si próprios sem se preocupar com o benefício de quaisquer grupos de que façam parte. Em suma, os economistas neoclássicos postulam que os seres humanos são indivíduos essencialmente racionais, mas egoístas que procuram maximizar seu bem-estar material.
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Sua crítica é de que tal perspectiva é insuficiente para explicar a vida política, com todos os seus desdobramentos emocionais, como não é suficiente para explicar muitos aspectos da vida econômica: "Nem toda ação econômica deriva do que é tradicionalmente conhecido como motivos econômicos" (Fukuyama, 1996, p.33). A tese de que os indivíduos exercem suas escolhas com base na maximização da utilidade, agindo assim de forma racional, não parece resistir a uma análise que leve em conta a vida em redes e associações que caracteriza a grande maioria dos homens. Esta é também a perspectiva de Mark Granovetter (2000), que vê nessa tese a enorme dificuldade dos economistas para incluírem em sua visão as inúmeras variáveis do campo social.
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(*) Professor do Programa de Pós-Graduação em Comunicação e Semiótica da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP).
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FONTE :http://www.scielo.br
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terça-feira, 17 de maio de 2011

Comunidadismo

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Hernani Dimantas(*)
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Comunidade. Repetição do mundo real, mas num ambiente controlado e criado pelo homem, feito a sua imagem, seu espelho. Criamos um novo bom senso coletivo para lidar com situações mais adversas, e deixamos correr solta a volúpia do ser humano. Uma comunidade é formada por gente. Seres humanos com os mesmos deveres e direitos, mas com participações diferentes. Uns pertencem à comunidade para ouvir, aprender, ou apenas para se valer das informações geradas. Outros, participam conversando, ensinando numa dinâmica atemporal. Poucos preferem exibir seus dotes, seus dilemas e suas idéias ou ir mais fundo escrevendo artigos e opinando para o desenvolvimento desta comunidade.
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Este é um conceito diferente de como fazer a sua comunidade, ou seus consumidores, participarem da condução e gerenciamento do teu site. Sempre acreditamos nesta possibilidade, e temos experimentos reais. But time is money, e dinheiro não corrobora com o ideal de comunidade digital. Sob pressão financeira abrimos o bico para favorecer uns em detrimento de outros. Esta é a verdadeira virtualidade? Fico indignado: a comunidade deixa de ter a função de comunidade, e seus líderes passam a desempenhar um papel quase tirânico, comandando com mão de ferro quem será privilegiado, e quem será desprezado. Com um discurso frívolo e monolítico. Se a comunidade está concentrada em conversações, onde está a coerência dessa pregação revolucionária? Qual o nome deste cárcere de idéias?
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Ahhhh... uma risada ao fundo. Risos abafados pelo silêncio profano. Cheiro de éter e formol. A morte virtual ronda pela comunidade. Quem cala consente. E quem fala apoia. Gritamos pela liberdade. Embora muitos preferem deitar a cabeça no travesseiro e se calar, mas nós preferimos ser verdadeiros, transparentes e felizes. Estamos falando de tendências. A esquizofrenia é uma realidade digital. Por trás da desilusão cultural, não vemos o mundo, e sim uma representação metafísica do que pensamos ser o mundo. Esqueçam os negócios. Esqueçam o dinheiro. E pensem na tuas vidas infelizes. A trajetória abafada pelo medo da verdade. O silencio não me toca a alma. Posso tocar no fundo do teu coração com palavras fúteis. Fazer você acreditar que estou interessado pelo potencial do teu Business Plan.
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Mas não estou... Não penso só em negócios. Penso na minha
vida, nos meus livros, meus filhos, minha história. Acredito numa humanidade melhor, no ócio regenerativo para todos, na democracia, na anarquia, em final de jogo na porta do estádio. Estou falando sério, não é uma loucura psicossomática. São idéias de final de verão, virando mais uma página montada com carinho e amor. Estamos trabalhando para criar um novo mundo. Uma Internet falada em neoportuguês. Som de atabaques, batuques de axé e a segurança nunca presente nos bailes funks. Mas tudo isto se torna irrelevante, se a busca coletiva, a unidade comunitária, preferir espelhar mazelas da sociedade tradicional.
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Na Internet podemos conversar, falar com um número de pessoas que jamais sonhamos. Esta é a grande promessa da era digital. E com todo este inter relacionamento estamos vivendo em comunidades muito diferentes do que estávamos acostumados. Tudo é muito novo para supor o que vai acontecer. Mas podemos prestar atenção na maneira que já fomos absorvidos pela digitalidade social. Não pense muito, aja duas vezes antes de perceber que o mundo rodopia, a lusitana roda, e muita gente está parada esperando a mudança passar.
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É por isso que sou hacker, Marketing Hacker. Vejo os mercados aflorarem, conversando e rindo. Ahhh, ehhhehe... uma risada ao fundo. Aumente o som. Power no amplificador mental. Estamos rindo da cara dos incautos, dos perdidos, dos solitários corações, que pensam que dominam o sistema, que conhecem tudo. "Deuses, todos deuses". Estamos rindo da tua empresa tentando vender salgadinhos pela rede, dos teus portais clonados, da contra tendência que supera o silêncio. E vamos continuar a fazer o nosso trabalho. Estamos conectados, nos linkando, abrindo a nossa boca, e crescendo. Todos estão de saco cheio destas tolices sempre iguais, deste mundinho restrito de certos negócios. Estamos fora!
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(*) Pintor, poeta, pirata e pesquisador.
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FONTE:
http://www.novae.inf.br
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terça-feira, 23 de novembro de 2010

Jornalismo para gerar capital social nas comunidades
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Carlos Castilho
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O jornalismo, como o conhecemos hoje em dia, está agonizante não porque seus valores e rotinas tenham se esgotado, mas porque a realidade onde ele se insere mudou. A teoria do jornalismo atual foi concebida num contexto em que a indústria da comunicação, da qual faz parte a indústria dos jornais, era quem ditava as normas no relacionamento entre emissores e receptores de notícias, um tipo particular de informação.
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A norma estava baseada no princípio de que as notícias eram um produto que precisava ser processado numa linha de produção e comercializado para gerar lucros capazes de manter a atividade industrial das empresas de comunicação. Mas a avalancha informativa provocada pela internet mudou este esquema. A notícia tornou-se um elemento essencial na formação do capital social nas comunidades, uma função mais relevante que a mero produto mercantil, destinado a garantir a sobrevivência de corporações da mídia.
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Com isso, o jornalismo tende a ser cada vez menos uma atividade industrial e mais uma função social. O que era um exercício retórico torna-se uma necessidade concreta. Até hoje, o discurso do jornalismo como função social era usado para amenizar o seu compromisso empresarial. Agora, a atividade jornalística passa a ser, cada vez mais, associada a geração de um fluxo de informações voltada para o desenvolvimento da confiança mútua entre membros de comunidades sociais. Não se trata de filantropia jornalística. Pelo contrário.
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A geração de capital social em comunidades é um pressuposto para o desenvolvimento econômico em bases sustentáveis, a meta futura vista como a mais viável para a sociedade atual garantir sua sobrevivência futura. Valores jornalísticos como urgência, ineditismo e exclusividade tendem a perder importância porque estão associados a interesses e estratégias corporativas. Em compensação a veracidade, contextualização, interatividade e diversidadetornam-se simplesmente essenciais à manutenção da base de confiança que dá aos cidadãos condições de viver em comunidades.
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Estes são alguns dos elementos básicos para uma reflexão sobre o novo papel do jornalismo num contexto no qual a preocupação social começa a ser reconhecida como relevante não por militantes políticos ou ativistas ambientais, mas por pensadores que procuram entender para onde as novas tecnologias da informação e da comunicação estão nos levando.
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O tema é complexo demais e precisa ser debatido pelo maior número possível de pessoas. Mesmo que a discussão seja caótica, demorada e, em alguns momentos possa parecer inconclusiva. Não temos outra alternativa, pois estamos entrando naera do conhecimento coletivo e da sabedoria das multidões.
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O jornalismo é uma das atividades mais afetadas pelas transformações geradas pelas novas tecnologias da informação e comunicação. E tudo indica que ele vai continuar sob o impacto de mudanças que tendem a afastá-lo cada vez mais do contexto mercantil. Para uns é um sonho, para outros um pesadelo.
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FONTE: http://carloscastilho.posterous.com
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