Loading
Mostrando postagens com marcador imprensa. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador imprensa. Mostrar todas as postagens

terça-feira, 29 de janeiro de 2013

Um modelo de Jornalismo Social


Luciano Martins Costa (*)

O jornalismo deve ser considerado um bem público ou é mais uma atividade privada de interesse coletivo? Essa questão rondou o MediaOn - Seminário Internacional de Jornalismo Online, realizado em São Paulo pelo portal Terra com a Fundação Itaú Cultural. Segundo a Folha de S.Paulo, a questão ainda não tem uma resposta definitiva, uma vez que o modelo experimental de jornalismo financiado por doações ainda está em processo de invenção. O projeto chama-se ProPublica, é dirigido por Stephen Engelberg, que trabalhou 18 anos no New York Times.

Iniciado em 2008 para produzir jornalismo apenas na internet, o ProPublica chamou atenção ao ganhar o prêmio Pulitzer deste ano, o primeiro para um veículo exclusivamente online. Outra reportagem, produzida pelo site e publicada no New York Times, já havia obtido o prêmio no ano anterior. Na entrevista concedida à Folha, Engelberg afirma que, como modelo de jornalismo, o projeto já provou que funciona. Impulsionado por doações privadas, tendo como principais financiadores o casal de milionários americanos Herbert e Marion Sandler e, mais recentemente, o megainvestidor George Soros, o ProPublica tinha como desafio inicial conseguir que seus repórteres fossem tão respeitados quanto os profissionais da imprensa tradicional.
.
Dedicados à investigação jornalística, seus repórteres ganharam rapidamente grande reputação, o que superou o temor inicial de que certas fontes simplesmente se negassem a retornar suas tentativas de comunicação. Entre os trabalhos destacados pode-se alinhar a revelação das condições na prisão de Guantanamo, a denúncia de violências em New Orleans após a passagem do furacão Katrina e outros temas que haviam obtido menos atenção dos jornais.

Mas o centro da questão sobre as chances de sucesso do jornalismo de objetivo exclusivamente social, sem interferência de interesses de negócio, segundo Engelberg, aparece quando se aborda questões do poder público e privado. Observe-se que o ProPublica já conta com 3 mil doadores entre indivíduos e fundações e tem grande chance de crescer com assinantes fixos. "Nosso modelo não é o melhor para encontrar patrocinadores corporativos, já que investigamos muitas empresas", diz o editor-executivo do ProPublica. Raciocinando ao contrário, pode-se insinuar que o jornalismo tradicional é mais patrocinado pela publicidade de empresas quanto mais certeza se tem de que determinados temas jamais serão publicados?
.

Agarrados ao papel

A resposta não está, obviamente, nos jornais. Na reportagem que publica sobre o mesmo assunto, o Estado de S.Paulo destaca que, para ganhar credibilidade, a ProPublica desenhou um modelo de parceria com a imprensa tradicional. O site oferece conteúdos exclusivos para publicações como o New York Times, Financial Times, Washington Post, Los Angeles Times e para programas de televisão privada e TV pública. A vantagem que apresenta é o menor custo de produção de conteúdo, uma vez que a infraestrutura de redação que usa a internet como plataforma custa menos. Mas o diferencial principal é percebido na qualidade do material jornalístico: a ProPublica tem uma redação em Nova York com 35 jornalistas, que produziram em 2010 mais de uma centena de reportagens que foram publicadas em quarenta veículos.

Enquanto um repórter do jornalismo tradicional tem que cumprir duas ou mais pautas por dia, na dura rotina da imprensa brasileira, um repórter da ProPublica pode levar o tempo que precisar para compor uma boa história, podendo produzir duas grandes reportagens por ano. No pacote de reportagens que os jornais publicam nesta quarta-feira, dia 23, sobre seu próprio negócio, destaca-se também a cobertura do encerramento do seminário promovido pela Associação internacional de Marketing de Jornais. A principal preocupação dos debatedores, segundo o relato da imprensa, foi a manutenção do valor percebido da mídia impressa enquanto se busca um modelo de negócio que produza lucros com a mídia digital.

O otimismo da representante do New York Times, que vem ampliando o número de seus assinantes online, não foi suficiente para os executivos brasileiros olharem um pouco além do horizonte: o fato de que 90% do faturamento das empresas jornalísticas ainda vem do papel parece bloquear qualquer tentativa de enxergar uma imprensa totalmente digital. Juntando-se as duas reportagens, é possível elaborar uma equação interessante: o jornalismo digital funciona como sistema informativo confiável e pode atrair financiadores, quando se assume como bem público. Já o jornalismo de papel, que se assume como atividade privada de interesse coletivo, ainda não enxerga seu futuro na nova plataforma, bem mais interativa.

(*) Jornalista e escritor. É autor do livro 'O Mal Estar na Globalização'.

FONTE: http://nosdacomunicacao.com.br

domingo, 19 de junho de 2011

A distância entre imprensa livre e imprensa boa

.
Washington Araújo (*)
.

Existe uma distância razoável entre imprensa livre e imprensa boa. Podemos afirmar que temos no Brasil uma imprensa livre. Veículos de comunicação divulgam o que bem entendem, usam de sua liberdade como bem entendem – do contrário não haveria liberdade –, elevam assuntos de importância secundária para a condição de matéria de primeira página nos jornais, ou com maior minutagem e maior destaque nos telejornais. E fazem, também, o caminho inverso: relegam a um terceiro plano o que teria tudo para ser notícia de primeira, notícia com N maiúsculo.
.

Ainda assim, não podemos dizer que temos uma boa imprensa pela simples razão de que há uma carga bem pesada de subjetividade em afirmação de tal monta. Boa para quem, cara pálida? Para os veículos de comunicação? Para os governos? Para determinados segmentos da sociedade? Para a sociedade como um todo? Esta última questão esbarra no senso comum do "ora, nem Jesus Cristo agradou todo mundo... como a imprensa agradaria a toda a sociedade ou, no mínimo, seria por esta considerada boa?"
.

A imprensa é livre, por exemplo, para mudar o foco real do debate sobre liberdade de imprensa e liberdade de expressão. Qualquer ser pensante que se atreva a pedir mais transparência da imprensa, mais debate sobre suas necessárias formas de regulação – e não apenas aquelas abrigadas no conceito genérico da autoregulação – é logo considerado golpista, pessoa que possui um dos hemisférios cerebrais localizados no campo do autoritarismo, do cerceamento à liberdade de expressão. São apenas censores os que não tomam parte das legiões do pensamento único. E, na verdade, isso tem um nome. Chama-se ideologização e nada mais. Por que há muito de ideologia no ataque a qualquer proposta de regulação da mídia. Do contrário, seria um debate muito bem vindo e não o que se deseja lançar sobre a sociedade, ao reputá-lo como um atentado à liberdade de imprensa.
.

Todos os meios
.

Sabemos, de antemão, que tipo de imprensa não queremos. Nesse bloco podemos afirmar com grande margem de acerto e correção que será uma imprensa refém do capital pelo capital; uma imprensa travestida de partido político e, portanto, a serviço de determinados projetos de poder; uma imprensa que atua como tribunal de primeira à última instância, acusando, julgando e condenando sem deixar de antes fazer terra arrasada da reputação de seus declarados desafetos, os também chamados "bolas da vez". A imprensa que não desejamos é aquela que é generosa nos ataques e nas acusações e extremamente parcimoniosa no uso do direito de resposta, direito muitas vezes conseguido apenas nos tribunais.
.

É nesse contexto que julgamos salutar que o governo apresente um anteprojeto de
regulação da mídia ainda neste ano. Que as experiências colhidas em governos anteriores sirvam de base para os estudos necessários e que este material seja disponibilizado para conhecimento da sociedade parece ser, desde já, um desafio e tanto. Temos que aproveitar o atual processo de convergência das mídias e o surgimento de novas tecnologias para proceder a uma atualização das regras do setor. Atualização que se faz urgente haja vista que normas brasileiras datam do agora distante ano de 1962, ano em que nem mesmo existiam a TV em cores, as transmissões por satélite e muito menos os meios virtuais – sítios, blogues, redes de relacionamento e tantas outras novidades.
.

A permanecer o status quo, temos o que temos: terra de ninguém, onde parece ter razão quem tem os meios de difundí-la a todo e a qualquer momento e, ainda mais, por todos os meios à sua disposição. Isto é, à disposição dos grandes conglomerados que produzem as notícias e sabem como despejá-las sobre a sociedade, usando o suporte escrito, radiofônico, televisivo e virtual.
.

O importante mesmo é não deixar o debate morrer de inanição. Na luta por uma imprensa de boa qualidade – e esta somente poderá assim ser adjetivada se for fundada no inegociável estatuto de sua liberdade – não devem existir mocinhos e bandidos. Há que se buscar uma imprensa que melhor combine os atributos da liberdade de informar com a responsabilidade de informar, as características de empreendimento econômico-financeiro lucrativo com aquelas de empreendimento que favoreça a identidade nacional e o fortalecimento de nossa ainda incipiente cidadania. É muito trabalho para pouco debate. Estamos apenas no início. Mas não se ganha batalha sem antes haver sido iniciada. E que tenhamos em mente a perspicaz observação do grande líder indiano Mahatma Gandhi (1869-1948) ao afirmar que "a liberdade para ser verdadeira precisa incluir a liberdade de errar".
.

(*) Jornalista e escritor. Mestre em Comunicação pela UNB, tem livros sobre mídia, direitos humanos e ética publicados no Brasil, Argentina, Espanha, México.
.

FONTE: http://www.cartamaior.com.br
.

quinta-feira, 19 de maio de 2011

Liberdade de imprensa x liberdade de empresa

.
Tamyris Torres
.

Não é de hoje que ouvimos falar sobre a grande imprensa administrando o que é notícia ou não e o jornalismo submetendo-se aos caprichos dos interesses de empresas e do governo. Ouvimos dizer sobre os “fatos comprados”, a divulgação de notícias criadas com objetivo de favorecer os interesses de quem pode prejudicar os grandes veículos ou das informações estrategicamente noticiadas com o propósito de favorecer os interesses da grande imprensa. Teria o jornalismo deixado seu caráter social, que, à serviço da comunidade, busca os valores éticos de informar e contribuir com o conteúdo importante à cidadania?
.

Com a criação das novas tecnologias da informação e mesmo antes com a manipulação da sociedade de massa em grandes veículos, o jornalismo passou a ser relações públicas, onde cuidar da imagem do cliente seria mais importante que cumprir a sua tarefa ideológica de valor social. Acredito que alguns fatores contribuíram para esta deturpação e dois deles chamados entretenimento e interatividade acabaram por se misturar com jornalismo, o tornando como coadjuvante, fazendo com que a profissão fosse levada a um nível de consumo secundário, sem muita importância.
.

Digo isso pois o jornalismo se tornou entretenimento, as pessoas não lêem mais as notícias acreditando que todas as palavras ali citadas estão isentas de valor pessoal e de interesses não muito bem identificados, mas ainda sim um interesse por trás daquela notícia. Seria mais um passa-tempo do que fonte de informação fidedigna compromissada com a realidade dos fatos. Além da interatividade, que com a sua fugacidade de novas notícias, transforma em frações de segundos a outra em obsoleta. Se antes o jornal de ontem era para embrulhar peixe, hoje a notícia de cinco minutos só é achada nos mecanismos de busca orgânica.
.

A velocidade da informação contribui para o esquecimento rápido de uma determinada notícia, contribuindo para a amnésia dos leitores, que muitas vezes são manipulados a esquecer rápido aquilo que leram. Hoje, eles têm tantas informações a sua frente que nem sabem administrar, dando importância muitas vezes aos seus interesses pessoais, sem pensar muito na coletividade e nos fatos importantes para a sociedade. Assim vai individualizando-se cada vez mais.
.

A produção de notícias em larga escala tem seus interesses econômicos intrínsecos. E os jornalistas que compõem as grandes redações acabam tendo de lidar com o que a empresa onde ele trabalha deseja veicular. O jornalista não tem liberdade de imprensa ao trabalhar em empresas que visam criar eventos com o objetivo de virar notícia. A notícia existe por si, porém criar uma que contribua para os interesses da corporação é mais rentável e sem muitas preocupações, pois aquilo que te denuncia nunca será impresso em um veículo seu, nem mesmo quando o jornalista apura, descobre e quer publicar. E caso ele resolva cumprir seu dever ético, cabeças rolam, pois a liberdade da empresa é mais importante que a liberdade da imprensa. E o que é o jornalista sem a imprensa?
.

As grandes corporações detêm o poder da imprensa. O jornalismo está nas mãos das empresas de comunicação descompromissadas com o conteúdo jornalístico idôneo. O que é ainda mais preocupante do que isso é que nada o que eu escrevi aqui é novidade para ninguém, a sociedade está cansada de ler denúncias como estas, contudo, continuam comprando e consumindo esse tipo de informação. Além disto, os jornalistas permanecem trabalhando e contribuindo para a manutenção desse tipo imprensa. A assessoria de imprensa deixou de ser uma ferramenta de comunicação para se tornar um veículo mister e forte na produção de conteúdo de massa, sem deixar espaço para o fazer jornalístico de conteúdo mais elevado, socialmente responsável e adequado as características da profissão.
.

FONTE: http://www.pontomarketing.com
.

domingo, 13 de março de 2011

A imprensa perde espaço no noticiário local

Carlos Castilho
.
Cerca de um terço dos norte-americanos prefere acessar redes sociais na Internet para obter informações sobre temas locais ou discutir assuntos comunitários. Trata-se de uma tendência que já está sendo observada na Europa, na Ásia e na Austrália, onde as pesquisas apontam também uma redução acentuada na participação da imprensa na produção de notícias locais. Aqui no Brasil não temos pesquisas atualizadas sobre este fenômeno, mas é visível a redução do espaço dedicado às questões comunitárias, salvo nos casos de grandes enchentes, desastres naturais, crimes , escândalos e acidentes. Para a mídia, a redução é um problema de custos operacionais, mas para o público é a substituição de um modelo informativo por outro.
.

Uma pesquisa divulgada esta semana e realizada pelos institutos Monitor e Pew Internet, ambos com sede nos Estados Unidos, mostrou que as redes sociais como o Facebook e Orkut são hoje responsáveis por 32% da informação local consumida pelos norte-americanos. Em segundo lugar vieram os blogs, com 19%; as mensagens por telefone celular (torpedos SMS), com 12%; e as micro-mensagens do Twitter, com 7%. Os restantes 30% estão distribuídos entre os veículos da imprensa convencional - mídia de massa.
.

Na Holanda, Alemanha e Suécia, pesquisas feitas por empresas de publicidade e marketing também detectaram a mesma migração para a internet dos interessados em assuntos locais. Trata-se de um fenômeno que altera radicalmente a ecologia informativa nas áreas urbanas porque retira dos jornais um público fiel, especialmente os assinantes, ao mesmo tempo em que amplia o interesse dos usuários pelos assuntos locais, graças à maior diversificação temática. A mesma pesquisa feita pelo Pew Center em três cidades norte-americanas mostrou que o interesse pelos temas comunitários é hoje duas vezes maior do que há cinco anos, principalmente porque as pessoas passaram a trocar informações entre si por meio dos mecanismos de interatividade. Estas mudanças de comportamento aumentam a importância dos estudos sobre participação do público na produção informativa, uma área que está praticamente virgem, tanto nas universidades como entre os institutos de pesquisa especializados em Comunicação.
.

A redução do noticiário local nos jornais, rádios e emissoras de TV é uma consequência direta do aumento da participação do público e da contenção de gastos nas redações. O acesso crescente à informação online está gerando um fenômeno mundial de busca de reconhecimento de direitos individuais e coletivos, fato que aparece de forma mais clara no âmbito da periferia das grandes cidades. Mas ao mesmo tempo em que a demanda cresce, os jornais mostram-se impotentes para atender à cobertura comunitária, porque isto implica triplicar ou até quadruplicar suas equipes de reportagem dedicadas a temas locais, o que é inviável nas condições atuais de fluxo de caixa (recursos financeiros) da maioria dos jornais e emissoras de rádio ou televisão.
.

A opção de usar cada vez mais o público como fonte de informações é uma possibilidade concreta porque permite ao jornal ou à TV estar no local dos fatos graças a câmeras fotográficas e filmadoras digitais de cidadãos comuns. Mas isso cria uma dependência em relação a pessoas sem formação jornalística, o que é rejeitado pela maioria das redações. Alguns veículos de comunicação que testaram essa alternativa com mais intensidade defrontaram-se com um outro problema: os chamados jornalistas amadores acabam reivindicando participação financeira ou funcional, o que também é rejeitado pelas redações.
.

O aumento da participação do público na produção de informações está obrigando os estudiosos a mudar seu foco de atenção. Até agora o estudo das mudanças na comunicação contemporânea provocadas pela internet e pela computação se limitaram a abordagens com foco no jogo de poder na mídia e na questão tecnológica. Falta ver o problema de baixo para cima, a partir das bases sociais, segmentos onde vão ocorrer as mais importantes transformações provocadas pelo uso das novas tecnologias de informação e comunicação.
.

O pouco que tem sido estudado, em especial por acadêmicos jovens, mostra que os processos de inovação ocorrem de forma mais intensa quando se incorpora o conhecimento tácito de pessoas até agora consideradas excluídas tanto do ponto de vista informativo como do tecnológico. As teorias desenvolvidas pelos grandes pensadores já não conseguem dar explicações completas para os complexos fenômenos contemporâneos porque em sua maioria foram construídas a partir de universos sociais reduzidos, se comparados às multidões que estão frequentando cada vez mais a internet. A sociedade atual necessita de novas explicações e, ao que tudo indica, isso só se tornará viável quando os pesquisadores derem mais atenção ao que ocorre no Twitter, no Facebook, no Orkut. Nesses ambientes circula uma informação que é ignorada pela imprensa e pela academia, e que ainda é vista com um marcado desdém.
.

FONTE: www.observatoriodaimprensa.com.br
.

quarta-feira, 9 de fevereiro de 2011

Jornalismo e Literatura

Compreender o uso, pelo Jornalismo, de narrativas literárias implica observar que estamos falando de uma diferença que estabelece diferenças, nos moldes propostos por Niklas Luhmann em sua releitura da Teoria dos Sistemas. Ou seja, que a (re)aproximação de campos do conhecimento antes complementares que antagônicos, caso do Jornalismo e da Literatura, faz emergir novas e sucessivas realidades, que, por sua vez, complexificam tanto o que é próprio do Jornalismo como da Literatura, reconfigurando cenários e exigindo novos paradigmas e gramáticas explicativas de um e de outro.
.
Vejamos o que ocorre, a título de exemplo, com os jornais impressos, em particular os de periodicidade diária. Se ainda veiculam, hegemonicamente, relatos concisos, objetivos, fincados em acontecimentos se realizando, deparamo-nos frequentemente com narrativas prolixas, de caráter interpretativo, ou diversional, escritas muitas vezes sem preocupação aparente de anunciar nenhuma novidade; focadas, antes, em entreter que noticiar, em contar histórias peculiares.
.

Uma explicação breve: por diversional e interpretativo vamos entender o jornalismo que, por meio de recursos da narrativa literária, busca algo mais que apenas informar, ainda que também o faça. “Diversional”, nesse caso, refere-se antes a “diverso”, “diferente”, que “diversão”. O livro Abusado, de Caco Barcelos, por exemplo, enquadra-se nessa categoria. Já “interpretativo” está ligado a textos que, pelo viés de seus relatos, permitem uma explicação mais aprofundada dos fenômenos em questão. É o que ocorre com Rota 66 – A história da polícia que mata, do mesmo Caco Barcelos. A diferença entre uma e outra categoria é que a segunda usualmente está ligada ao acontecimento se realizando - uma reportagem sobre pessoas mortas pela polícia, por exemplo.
.

É o que observa a pesquisa em andamento, realizada em parceria entre o Departamento de Comunicação e o Programa de Pós-graduação em Letras da Unisc. Durante 30 dias, os pesquisadores envolvidos no levantamento analisaram as páginas de dois dos principais jornais diários do Estado – Gazeta do Sul e Zero Hora – e concluíram, entre outros, que textos das categorias diversional e interpretativo não são mais exclusividades quase que somente das revistas e dos livros-reportagens. Eles incidem com muita frequência no jornalismo diário também, e isso é diferente. Ou seja, o uso de recursos próprios da literatura em textos jornalísticos, caso das subjetividades, jogos de linguagem e digressões, para ficarmos em três, até então usual em revistas impressas e livros-reportagem, está presente – e muito – em veículos que se renovam a cada 24 horas. E que são feitos, portanto, para serem consumidos rapidamente, diferentemente do que ocorre com seus pares impressos. Trata-se de uma espécie de (um bom) paradoxo.
.

Há um motivo relativamente claro para textos dessa natureza frequentarem antes páginas de livros e revistas que jornais: a periodicidade. Como textos ditos “literários” são mais elaborados que as notícias, e exigem, portanto, redação e leitura mais cuidadosas, já que o ideal é que o dispositivo em que são veiculados não tenha vida breve. Uma semana, um mês, uma vida (no caso dos livros): conteúdos diferenciados exigem tratamento específico, em especial quando falamos de uma forma de conhecimento cuja produção de textos não prescinde de intencionalidade (escrever para alguém) como ocorre com a literatura (escritores escrevem para si mesmos em primeiro lugar). Mas por que, então, essa metamorfose está ocorrendo justamente com os jornais impressos diários? Dentre as explicações possíveis, e é nessa direção que se movem os passos da pesquisa referida anteriormente, é que esse fenômeno se presta, em primeiro lugar, para fortalecer a identidade dos jornais impressos. Para quê? Basicamente para que eles sejam reconhecidos, e aceitos, a partir do que são, e não apenas do que relatam.
.

Interessa, por esse viés, cada vez mais, veicular informações de forma original, criativa, que simplesmente dizer o que houve. Seduzir o leitor, enfim. Por um motivo igualmente simples: todos os demais veículos ou já disseram o que houve, ou haverão de dizê-lo mais cedo ou mais tarde. Então, é preciso dizer diferente. Não se trata de fenômeno recente: basta lembrar que, em seus primeiros dias, ainda no século 17, o jornalismo opinativo era resultado principalmente do trabalho de escritores e políticos. Mesmo mais tarde, às vésperas do século 20, quando o fazer jornalístico desenvolve especificidades que nos permitem reconhecê-lo como tal, os escritores seguem se valendo das páginas dos impressos para: a) tornarem-se conhecidos e b) ganharem algum dinheiro, sempre necessários. Tempos difíceis para as duas partes, fidedignamente retratados por Honoré de Balzac em As ilusões perdidas. O que mudou, então?
.

A sociedade, e, com ela, o jornalismo e a literatura. No cerne dessa transformação, que é de natureza tecnológica, mas também sócio-discursiva, observa-se o amalgamento do sistema midiático-comunicacional (composto pelos jornais, revistas, televisões, rádios, sites etc.) por meio dos nós e conexões da internet. Interligados, os dispositivos permitem que as informações circulem mais e mais rapidamente, complicando a viabilidade dos veículos justamente por torná-los iguais aos demais. Uma saída é se tornar diferente, ímpar, criativo e necessário, atributos possíveis, no caso dos jornais impressos, por meio do uso de técnicas literárias incorporadas às jornalísticas.
.

FONTE: http://www.gaz.com.br

quarta-feira, 14 de julho de 2010

Liberdade de expressão e de imprensa
.
Idelber Avelar (*)
.
1. A irrestrita liberdade de imprensa de que se goza hoje no Brasil deve ser defendida por todos os brasileiros, independente de sua posição política. Essa liberdade se caracteriza pela ausência de censura prévia do Poder Executivo sobre o conteúdo daquilo que se diz, escreve ou publica no país. Literalmente qualquer coisa pode ser dita sem impedimento prévio no Brasil, e a mastodôntica coleção de mentiras, injúrias, calúnias, difamações, distorções e manipulações veiculadas regularmente por Veja, Globo, Folha, Estadão, Zero Hora e outros oferece a prova cabal de que vivemos em pleno exercício desta liberdade.
.
2. Não há democracia em que a ausência de censura prévia sobre o dizer se confunda com a ausência da possibilidade de responsabilização (inclusive penal) posterior ao dito. Muitos brasileiros, ainda escaldados pelas ditaduras, confundem com “censura” qualquer reclamo de responsabilização sobre o dito. Uns poucos brasileiros ligados à grande mídia manipulam de má fá essa confusão em benefício próprio. Na verdade, todas as democracias que asseguram a plena liberdade de expressão (a total ausência de censura prévia) possuem em comum, em seu arcabouço jurídico, alguma forma de penalização sobre o difamar e o caluniar. Essas leis são parte do que garante a plena liberdade de expressão. O problema no Brasil jamais foi a existência delas. O problema no Brasil é que só os poderosos têm podido recorrer à justiça evocando-as, e em geral para silenciar vozes discordantes. As reais vítimas da difamação dos grupos de mídia têm tido acesso quase nulo à reparação jurídica.
.
3. A liberdade de imprensa não está realizada em todo o seu potencial se apenas meia dúzia de famílias dela usufruem de forma massiva. O fato é óbvio mas, nos debates sobre o assunto, o óbvio com frequência clama por ser reiterado: a liberdade de imprensa estará tanto mais realizada quanto mais numerosos forem os grupos sociais com acesso a veículos que os representem; mais amplo for o leque de discursos acerca de cada tema; mais diversificados forem os pontos de vista em condições de encontrar expressão, entendendo-se que essas condições incluem não só a liberdade de dizer, mas também o acesso aos meios materiais que tornam possível a circulação do dito. Neste sentido, o grande obstáculo para a plena democratização da imprensa no Brasil - que avançou em função das novas tecnologias e algumas políticas do governo Lula - é justamente a mídia monopolista das famílias que se agarram aos seus velhos privilégios com enraivado rancor.
.
4. Não há liberdade plena de imprensa sem direito de resposta, o direito de expressão mais desrespeitado, historicamente, no Brasil. Tão fundamental é ele para a liberdade de imprensa que não faltariam teóricos do Direito alinhados com a tese de que se trata de direito antropologicamente universal, comparável à legítima defesa. Poucos blogueiros independentes, depois de publicar texto enfocado em outrem, negariam espaço comparável para a resposta do citado. No entanto, vivemos num país cujo maior jornal publica ficha policial falsa, adulterada, com falsa acusação, sobre o passado de uma ministra, e nem mesmo ela consegue exercer seu direito de resposta. Caso ela tivesse cometido o erro político de buscar judicialmente o exercício desse direito, teria sido insuportável a gritaria histérica dos funcionários das famiglias contra uma inexistente “censura”. É preciso que cada vez mais a sociedade civil diga a esses grupos de mídia: vocês não têm autoridade moral para falar em liberdade de imprensa nenhuma, pois apoiaram a instalação dos regimes que mais atentaram contra ela, além de que não a exercem em seu próprio quintal, negando sempre o espaço de resposta a quem atacam. A Folha chegou ao cúmulo de publicar um texto que lançava lama sobre dois seus próprios jornalistas, qualificando de “delinquência” uma reportagem feita por eles, sem que os profissionais pudessem exercer seu direito de resposta. Pense bem, leitor: essa turminha tem cara de guardiã da liberdade de imprensa?
.
5. A veiculação de sentença penal condenatória acerca de crime contra a honra cometido pelos grupos de mídia é um direito do público leitor/espectador/ouvinte. Especialmente no caso de sentença já transitada em julgado, é básico o direito do leitor saber que a justiça decidiu que naquele espaço foi cometido um crime contra a imagem de alguém. No entanto, até a data de produção desta coluna (03 de maio), continuam valendo as perguntas: como a Folha de São Paulo tem a cara de pau de não veicular a notícia de que foi condenada em definitivo por crime contra Luis Favre? Como a Zero Hora tem a cara de pau de não avisar ao leitor que se confirmou sua condenação por crime contra uma desembargadora?
.
6. A discussão democrática sobre a renovação (ou não) das concessões públicas a rádios e TVs não é contraditória com a liberdade de imprensa; pelo contrário, é parte de seu pleno exercício. Há uma razão pela qual a liberdade de que se imprima qualquer coisa é juridicamente distinta da autorização a que se transmita TV ou rádio em sinal emprestado pelo poder público. Só por ignorância ou má fé pode se comparar uma recusa do Estado a renovar uma concessão de TV ao ato de fechar um jornal (recordando que a má fé pode ser ignorante, e com frequência o é nestes casos). No Brasil, a discussão democrática sobre as concessões é de particular importância no caso do único grande império de mídia que sobrevive com inegável capilaridade e poder de fogo, o da famiglia Marinho, de tão nebulosa história.
.
7. A liberdade de imprensa inclui, como componente essencial e inalienável, a liberdade de exibir, ridicularizar, parodiar e pastichar as gafes, mentiras, barrigas e distorções veiculadas pela própria imprensa. Hoje, no Brasil, nove de cada dez gritinhos histéricos dos patrões e funcionários da grande mídia sobre um suposto cerceamento de sua liberdade de imprensa referem-se única e exclusivamente ao exercício dessa mesma liberdade, só que agora por leitores e ex-leitores, cujo direito à expressão essa mídia jamais defendeu, sequer com um pio.
.
(*) PhD em Literatura Latino-americana pela Duke University e professor de Literaturas Latino-americanas e Teoria Literária na Tulane University (EUA).
.